
A menina pálida de
sobretudo negro protegia as vistas com uma das mãos. Detestava sair em missão
durante o dia, mas desta vez não teve escolha. Seu alvo atual não dorme e não
cansa. Passou a noite inteira em seu encalço. Um Escorpião Cervicus. Uma
criatura maligna que ataca suas vítimas pelas costas e se gruda em sua espinha
cervical tomando o controle de seu corpo e sua mente. Podem ser pequenos como
ratos ou grandes como elefantes. Por sorte a caça atual era do tipo médio.
Havia possuído um mago na últimas cidade por onde passou e deu bastante
trabalho destruindo tudo, mas quando a energia mágica contida naquele corpo
acabou a fera não teve outra escolha a não ser buscar outro hospedeiro. Não
havendo magos por perto, a vítima foi um homem forte que cuidava de um lagrel,
uma espécie de lagarto gigante usado como cavalo.
A menina chegou em um
precipício que dava para um deserto e olhou lá para baixo. Pode ver o corpo do
lagrel estendido entre as pedras e a areia. Um sorriso surgiu naquele rosto
jovem. Seu truque havia dado certo.
Ela ficou de pé,
abriu os braços e sussurrou algumas palavras em uma língua morta depois saltou.
Seu corpo caiu rápido
como uma rocha, mas pousou no solo arenoso tão leve quanto uma pluma. Foi até o
corpo do lagarto e com certa dificuldade levantou sua parta dianteira. Ali
entre a axila e o peito da fera havia um espinho branco. Um espinho curvo. Ela
o tirou com um puxão só e o limpou na areia. Em suas mãos o objeto não era tão
pequeno quanto no corpo da fera. Um objeto que ela conhecia bem. Abriu seu
sobretudo e o encaixou do lado esquerdo junto de outro objetos semelhantes. Uma
costela. Parte de uma intrincada armadura de ossos escondida por debaixo de sua
vestimenta negra. Feito para proteger, mas ótimo para atacar. Ela olhou para o
céu. Quase meio-dia. Tinha de andar rápido.
Seguir aquele rastro
não era nada complicado. Precisava apenas se apressar para anular a dianteira
da fera. Entretanto, se os rastros deixados ainda eram humanos em um terreno
onde os escorpiões têm vantagem só queria dizer uma coisa. Ele estava fraco.
Mantinha-se apenas com a energia do hospedeiro. Era um corpo bem forte e
resistente o que escolheu.
A fera não
conseguiria cruzar o deserto inteiro a pé, sem comida e sem água. Decidiu
esperar sua algoz e enfrentá-la ali mesmo. Ela também não carregava muita
coisa. Duvidava que ela tivesse cantis a sua disposição. Devia estar muito
cansada. Mais do que aquele corpo. A
venceria ali e voltaria para onde o sol não fosse tão castigador.
A menina andava em
ritmo acelerado, mas contido. Sabia que sua água não demoraria a acabar, mas
não poderia voltar de mãos vazias. Não desta vez...
Seus olhares se
encontraram. A fera sorriu ao perceber o cansaço da menina que era quase uma
criança. Sacou a espada do guerreiro possuído e se pôs em posição de ataque. A
menina puxou duas foices de mão das fivelas atadas às suas coxas. Para a fera,
aquela cena seria patética não fosse a noite inteira de provas que sua algoz
apesar de ser pequena e parecer quase uma criança, tinha a experiência e
agilidade que muitos mestres de armas não tinham. O ataque tinha que ser
preciso e fatal. Não poderia se cansar com fintas e um esgrimir defensivo.
Tinha que ser fatal, e seria. Ambos correram de encontro um ao outro. Sem grito
de guera. Sem dizer palavra alguma. Sabiam que precisavam se poupar. E ambos
queriam que o único som dos próximos segundos fosse de metal se chocando e um
grito de agonia mortal.
O guerreiro segurou a
arma com ambas as mãos e descreveu no ar um arco mortal com a lâmina bem na
altura do peito da menina que desviou a arma com uma de suas foices. Foi
necessária tanta força nesse movimento que o ataque com a segunda foice não
teve o desempenho que queria. Fez um corte diagonal no guerreiro começando de
um lado do peito até o outro lado da cintura. Ferimento grande, mas raso. O
sangue do guerreiro espirrou nela sem lhe tirar a concentração. O guerreiro
girou a espada e desferiu um golpe vertical de baixo para cima fazendo a menina
se jogar para trás para não ser atingida. Tocou o chão arenoso com certa
instabilidade e precisou de mais dois passos para trás para se equilibrar.
Estando distante assim resolveu um golpe desesperado: arremessou uma das foices
na direção do guerreiro que se desviou facilmente. O guerreiro riu da tolice
cometida por sua adversária. Não teria com o que desviar seu ataque agora, ou
se conseguisse fazê-lo não poderia contra-atacar sem primeiro conquistar
espaço. Espaço este que ele não daria. Correu para ela e preparou novamente o
golpe horizontal com toda sua força. Era o fim da menina. O fim de Malévole, a
Caçadora de Espíritos. Mas espere... Que sorriso maligno é aquele no rosto
dela? Será que em face da morte sua sanidade se despediu antes das vida? Não.
Não era nada disso. A fera entendeu muito tarde o que se passara. Tentou frear
o ataque para se desviar de um ataque pelas costas, mas era tarde demais. A
foice arremessada não era uma arma perdida nas areias do deserto de Globary,
mas uma arma de retorno que tinha em seu caminho de volta um Escorpião Cervicus
agarrado às costas de um guerreiro quase sem forças. A lâmina o atingiu com
precisão e força. A menina deu um passo para o lado dando espaço para aquele
corpo cair.
Ela guardou ambas as
foices em suas bainhas e retirou a luva da mão esquerda expondo uma cicatriz
vermelha em forma de runa e tocou o
Escorpião Cervicus sobre o corpo do guerreiro desacordado. O corpo da fera se
desintegrou em pontos de luminescência avermelhada que despareceram da
existência. A menina voltou a calçar a luva e sorriu triunfante.
O homem ainda estava
vivo, mas estava perdendo muito sangue.
- Vamos embora, Mali
– disse uma voz sombria ao seu ouvido.
- Mas ele ainda está
vivo...
- E vai morrer!
- Não posso permitir.
Ele foi apenas usado.
- Você está fraca,
Mali. Isso vai te cansar mais!
- Mas não vai me
matar, Voliar! E se não puder confiar em você para me proteger quando estiver
fraca, diga-me para que preciso de você?
A voz nada mais
disse.
A menina virou o
corpo do guerreiro e tocou em seu largo ferimento aberto com a mão direita
fazendo o sangramento parar instantaneamente enquanto abria os três lacres de
um estojo preto em forma de caixão que carregava na cintura com a mão esquerda.
Novamente fez uso daquela língua morta e uma fumaça fina e azulada saiu do
estojo e concentrou-se entre seus dedos da mão esquerda. Ela fechou o estojo e
levou aquela fumaça até o ferimento que começou a se fechar.
- Espíritos matam mas
também curam.
Arrastou o corpo do
homem até um abrigo entre as rochas e o lagrel no pé do precipício. Deixou ali
seu cantil e o que restou de suas quase inexistentes provisões de viagem.
- Vamos precisar
disto depois, você sabe... - sussurrou finalmente a voz em seu ouvido.
- Eu! Eu vou precisar
disto depois, Voliar! Mas agora ele precisa mais. Não tente vencer esta batalha
perdida. Não somos inimigos. Não precisamos ser.
A menina começou a
escalar o paredão do qual pulou. Caiu. Estava fraca. A voz nada disse. Apenas
se deleitou com a vitória moral.
- Vamos dar a volta –
decidiu a menina – Não tenho mais pressa. Nossa missão já se adiantou
consideravelmente. Pegamos o quarto espírito selvagem.