quarta-feira, 11 de agosto de 2010

O CASTELO DOS CINCO REINOS (Parte 1)


Depois de longos anos errando pelo mundo, Melanin, o menestrel, finalmente foi alvejado pelo amor narrado em suas histórias e canções.

Numa feira de inverno conheceu Nancy, uma moça jovem, bonita e curiosamente inteligente. Mais curioso foi uma lady dar ouvidos e confiança para um menestrel sem chão.

- Não posso levar adiante esse flerte, cara dama, pois não tenho posses para quando quiser algo a mais... Além de meu coração - sentenciou o menestrel com sincero pesar.

- É rico de sensibilidade com o mundo e com as palavras, além de ser muito bem sucedido na escolha de seus contatos e de sua colocação ante eles, logo se nota – reagiu a moça - Todos gostam de tê-lo por perto e não há um ambiente que passe sem deixar estampado um sorriso em alguém. Ao meu ver é um afortunado sem igual.

- Sou? Perguntou incrédulo o artista.

- Se não tem posses não tem dívidas, logo não está preso a nenhum fisco ou lugar e também não tem dores de cabeça por não poder banquetear essa ou aquela noite.

- Sim, é verdade, mas também não tenho chão, meus pés não fincam em terra alguma, precisam andar, conhecer novos solos...

- Senhor Melanin, os homens não nasceram com amarra alguma além daquela que o prendia a sua mãe, mas que ainda assim foi cortada nos primeiros momentos de vida para ensinar que o homem nasceu para ser livre. Não nascemos para nossos pais, mas para o mundo e para nós mesmos.

- É muito estranho, e bonito, se me permite dizer, ver uma mulher falando assim, nem parece parte deste mundo, deste contexto em que vivemos...

- Bondade sua dizer isso.

- Não... Na verdade sou um homem vil.

- Todos somos um pouco vis, mas achamos ruim admitir certo egoísmo ou maldade.

- Verdade, o homem não é como a folha de pergaminho que tem apenas dois lados - concordou deixando de lado a apreensão e assumindo o lúdico embate filosófico - O homem é como o abacaxi: multifacetado, cheio de ondulações e texturas e o mais importante; é o rei de si mesmo até encontrar alguém a quem queira bem, quando então perde a coroa, mas não deixa para trás o amargor e a doçura de ser quem é.

- Então senhor Melanin abacaxi, quer seguir em frente ou voltar a errar sozinho?

- Para não trair o que pode estar nascendo aqui, devo confessar por fim que não tributo minha vida a deus algum. Não existe força invisível acima do céu, abaixo da terra ou dentro dos mares que guie meus caminhos, olho para um lado e vou para lá até ter vontade de ir para outro.

- Deus está fora, mas também está dentro. Não me importa que não lhe tribute crédito algum desde que não me impeça de vislumbrar a altura do céu, o calor da terra e a profundidade do mar. Escolhi acreditar, mas aprendi a respeitar.

- Está rivalizando em palavras comigo, não sei o por que, e embora tenha pensado em coisas melhores para dizer, aprendi que às vezes é melhor perder. Se for sincero o conteúdo além da forma, se há aqui realmente um sentimento acontecendo, direi o que farei e correrei o risco de estar sendo ludibriado por uma contadora de casos tão boa quanto eu: Voltarei pelo mesmo caminho por onde vim até aqui e tomarei de volta cada pedacinho de meu coração que deixei cair ou arrendei por aí e voltarei completo para você... E se quiser lhe entregarei ele inteiro!

- Está bem, muito justo e honrado de sua parte, não quero trocar pedradas com seu passado, entretanto não vou querer seu coração para mim, prefiro que fique com ele e consiga não dá-lo a mais ninguém.

- Uma prova...

- Não, apenas não quero ser como o cordão materno que já perdeu, não quero te prender. Quero que se ligue a mim por querer e por sentir apenas.

- És forte e doce como o mais saboroso dos vinhos e atrevo-me a dizer que não sou fraco para bebidas, mas já estou um tanto embriagado por você. Peço apenas que me aguarde, pois voltarei com o cálice para brindarmos nosso enlace. Aqui, lá onde estarei ou no meio do caminho.

Ele beijou aquela mão perfumada, fez a corte e partiu contente por encontrar alguém por quem perderia sua coroa.

2 comentários:

R. disse...

Bom o texto, de verdade. Como é dificil encontrar pessoas com quem podemos ter esse nível de comunicação e que nos diga umas verdades na qual dificilmente acreditaríamos... voltaste à velha forma, amigo?

Em tempo: te pedi para postar um poema TEU (do teu livro)no MEU blog, entendeu?

R. disse...

E coloca o vereda blues na lista de blogs aí, senão você não lembra de visitar... rsrsrsrs