sábado, 9 de outubro de 2010

O PRIMEIRO CORTE



O piso de azulejos brancos estava repleto de listas negras onduladas. Listas finas, umas pequenas e outras bem longas. Um caos abstrato em preto e branco. O colo de Lúcia também tinha listas finas, e até seu lenço violeta, úmido pelas lágrimas persistentes ostentava uma ou outra destas listas, ostentava um ou outro de seus fios de cabelo.

A tesoura malvada corria certeira ceifando a beleza daquela, outrora, cabeleira negra. Ela mesma, Lúcia, quem pediu e pagou pelo corte. Doze anos de cultivo, destruídos por oito reais. Vinte e nove anos de vida e quase tudo isto usando máscaras e mentindo.

Irmão Pedro disse que o apóstolo Paulo revelou em uma de suas cartas que Deus deu cabelos longos a mulher para que usasse de adorno completando sua beleza, um presente divino e, era justamente por isto que Lúcia não poderia ir contra um presente de Deus. Ela replicou dizendo que conheceu Deus fora da Bíblia: já o conhecia antes de aprender a ler, e o sentia sempre perto, mesmo nos momentos de revolta, sabia que nestes momentos ele escutava paciente e a fazia se acalmar. Ela sabia, ela sabe, que Ele existe e, não é esta escolha que a afastará de Seu coração. Não mesmo. Ela não queria largar a igreja, mas estava resoluta em encontrar uma que aceitasse sua escolha. Rezaria sozinha até lá, mas não deixaria nunca de fazê-lo, pois não via discordância no que estava sentindo.

O nítido e quase imediato afastamento daqueles que julgava serem seus amigos não a magoou tanto quanto sentir o primeiro corte em seu coração provocado pelas palavras de seu pai: “Preferia te ver morta a te ver deste jeito! Eu mesmo preferia estar morto a passar por isso... eu me envergonho de você por saber que você surgiu de mim.. foi minha semente do mal, dizem que todo mundo tem uma. A minha é você”, e disse coisas ainda piores, mas são do tipo de coisa que não se repete de modo consciente e proposital. Se não fosse o apoio incondicional de sua mãe teria ruído como uma coluna de serragem exposta a um vento mais forte do que a brisa habitual. Teria sempre o ninho dos braços quentes de sua mãe, mesmo que isso lhe custasse desentendimentos e longas brigas com seu pai. Ele não entendia que ela apenas fez essa escolha por que aprendeu com ele que a maior mentira é aquela que contamos para nós mesmos e, nos forçamos a transformar em verdade, aprendeu ainda que cada mentira nos aproxima mais do inimigo e afasta mais do que é bom e do que é certo... A mentira nos afasta de Deus! Seu pai não via que ela queria apenas o bem para si. É uma pena, mas ele também a ensinou, com o passar dos anos, a crescer e a viver sem a presença e o carinho de um pai e, portanto não honraria as boas lembranças que tinha dele se fingisse que passou, que está tudo bem e vestisse novamente as máscaras da moral e continuasse a mentir para si.

Lúcia também merecia amar, e amava. De fato amava, mas não como foi lhe ensinado; amava sem querer, sofria sem querer, mas um dia resolveu não sofrer mais, resolveu querer amar... do seu jeito. Era diferente e amava o igual.

O lenço violeta foi presente de Catarina: “Violeta é a cor das fantasias e dos sonhos – ela disse ao entregar o presente – não quero que chore nunca, mas se tiver que chorar enxugue suas lágrimas aqui e elas se converterão em sonhos realizados, enxugue o suor de seu rosto e o único trabalho que terá, será começar a sorrir”. Ela o achava lindo e nunca abandonaria tão valioso presente. Nunca.

Os cabelos caíam, as lágrimas rolavam e as lembranças iam se distanciando para abrir espaço para a grande quantidade de esperança que depositava em seus planos futuros. Lúcia abriu a porta do armário de seu quarto e jogou tudo para fora, até a última peça. Escolheu o que queria para si, mostrou a sua mãe, despediu-se de seu pai – que fingiu que não a via mais – e partiu.

Não sentia-se menos feminina, e por incrível que pareça não sentia-se menos amada, apenas precisava mudar, precisava ver outra cara no espelho pela manhã para ter certeza de que olhava para ela mesma. Não estava sozinha no salão da cabeleireira: de um lado Cleonice, sua mãe coruja e seu apoio de todas as horas, e do outro lado Catarina, seu motivo, sua amiga... e sua namorada.

Choravam todas. Motivos diferentes permeavam seus corações, mas igual era o adereço acalentador de ambas: um lenço violeta do qual não se desfariam nunca.

Nunca.

2 comentários:

Anna disse...

Incrivel, escreve tão bem... sempre me deixa emocionada. Tive que segurar pra não chorar *-*

R. disse...

Texto excelente. Vai deslocando a atenção do leitor de um lugar para o outro sem ele se dar conta... espero que você tenha mais textos como esse.
Queria muito um dia escrever um texto (uma peça) contigo, meu amigo.
Abs.