terça-feira, 24 de março de 2009

Segredos Públicos

A noite está fria.

O bar está cheio.

A música está alta e o poeta amador oferece seus versos a módicas moedas.

Ostenta um sorriso cativante e simples. Pega o combinado e sai. Vai rimar em outra freguesia sem a certeza de que alcançará alguém.

...

Tarde quente.

Cidade pulsante.

Trânsito rápido.

Carlos para na calçada a espera do semáforo. Todos ao seu redor atravessam a rua.

O semáforo retorna a abrir para os carros. Carlos olha um carro verde vindo não muito atrás e anda.

Anda entre os carros. Não se desvia. Não se retarda. Apenas anda.

Se posiciona para que a motorista do carro verde possa vê-lo, mas não possa desviar-se dele.

Ele nem fechou os olhos, apenas sorriu e acabou.

De seus dedos escapa um papel:

" Agora vivo em seu olhar, pois cansei de viver no escuro"

...

Manhã chuvosa.

Bairro sonolento.

Terraço sujo.

Elisa olha para as outras casas e imagina se agora estariam todos bem.

Um ônibus se aproxima e o prédio já sente o pisar de cada funcionário.

Ninguém teria notado aquele espaço vazio no fundo? Não deveriam telefonar para algum conhecido?

Não.

Ela abriu os braços e o teto do ôniubs a acolheu como um pai.

Ninguém acreditava no que tinha acontecido, mas sabiam suas últimas palavras graças a um papel anexo a seus documentos:

"Agora vivo em vocês, pois cansei de viver só em mim".

...

Noite abafada.

Apenas os lábios safados de uma mulher ou a espuma gelada de uma cerveja fariam Luís não desistir de acordar no dia seguinte.

O bar estava lotado.

Luís passa de mesa em mesa com sua bolsa aberta exibindo os volumes xerografados e cuidadosamente finalizados de seus livretos de poesia.

Declama um verso ou outro para chamar a atenção. Poucos ouvem, mas todos ouviram o estampido que o derrubou de surpresa.

- Agora viva em mim, pois cansei de ser morada só de minhas dores - declamou Roberto disparando mais duas vezes contra o poeta no chão.

A música parou.

- Viverems todos fora daqui, pois aqui se cansou de nós... Disse Roberto dando um tiro em sua própria cabeça e caindo morto

Assim morreu Roberto, filho de Elisa e irmão de Carlos na vingança de uma dor que não lhe cabia mais...

Assim Renasceu Luís de cada olhar que se voltou pra seus versos pilhados da cena do crime.

...

Ontem vivia em mim e descobri cmo cansa ser vazio,
Pois me enchi de tanta coisa que não serve mais
Que ser eu não faz mais tanto sentido.
Você levou um pouco de mim e nem me pediu permissão.
Faz falta, sabia?
Me vi no escuro dos holofotes de neon,
No silêncio dos shows que nunca fui
E no calor das camas que nunca deitei.

Ontem acordei e sai por aí.
Me deixei em casa e apenas saí.

Não cruzei olhares,
Não retribui sorrisos,
Não apertei abraços,

Pois eles não ocorreram.
Saí sem mim e descobri que só vivo com você!

Isso deve mudar.
De alguma forma
Isso deve mudar!

Já sei
Vou ser você e assim viverei para mim...

Agora vivo em seu olhar, pois cansei de viver no escuro
Agora vivo em vocês, pois cansei de viver só em mim
Agora viva em mim, pois cansei de ser morada só de minhas dores

No fim, pois ele virá...
Viveremos todos fora daqui, pois aqui se cansou de nós...

Um comentário:

dieymeskiller disse...

Caraca Flavio.
que murro na cara este texto...
Parabens!!!
A muito tempo não lia algo tão bom!!
Abraços!!

PS: Poemas novos em meu blog...